A cirurgia tornou-se parte rotineira do cuidado moderno, mas complicações após operações ocorrem em até 25% dos pacientes e pelo menos metade dos danos cirúrgicos é evitável. A OMS reuniu especialistas mundiais para definir padrões essenciais de segurança, e o cirurgião Atul Gawande liderou a equipe que os transformou em uma única ferramenta.
A ideia
Uma lista de verificação de 19 itens que toda a equipe lê em voz alta em três momentos — antes da anestesia, antes da incisão, antes de o paciente sair — para que nenhuma etapa dependa de uma única memória
A OMS destilou um amplo padrão de cirurgia segura em uma lista de verificação de 19 itens que leva menos de dois minutos e é realizada em três momentos críticos: antes da anestesia, antes da incisão na pele e antes de o paciente sair da sala de operação. O cirurgião, o anestesista e os enfermeiros fazem uma pausa juntos e confirmam verbalmente cada item — identidade do paciente, alergias, momento do antibiótico, contagem de instrumentos e compressas — em vez de confiar na memória de alguém.
No piloto realizado em oito hospitais de oito cidades, as complicações em pacientes internados caíram de 11% para 7% e as mortes de 1,5% para 0,8% entre 7.688 pacientes, com ganhos iguais em contextos de alta e de baixa renda. A OMS afirma que a lista de verificação é hoje usada pela maioria dos prestadores de serviços cirúrgicos no mundo, e sua estrutura de três pausas se espalhou para outros campos da medicina.
Contexto
O Segundo Desafio Global de Segurança do Paciente da OMS, 'Cirurgia Segura Salva Vidas', partiu de uma avaliação direta: estima-se que 234 milhões de operações aconteçam no mundo a cada ano, as complicações são comuns e uma grande parcela dos danos cirúrgicos é evitável. Grupos de trabalho de especialistas internacionais revisaram as evidências e concordaram em quatro áreas em que era possível melhorar — prevenção de infecção, anestesia segura, equipes seguras e medição.
A invenção resultante foi deliberadamente sem glamour: uma lista de verificação de 19 itens que leva menos de dois minutos, realizada em três momentos de cada operação — antes da anestesia, antes da incisão na pele e antes de o paciente sair da sala de operação. Em cada pausa, toda a equipe para e confirma os itens verbalmente em conjunto. Como disse o autor principal, Gawande, 'o conceito de usar uma lista de verificação breve, mas abrangente, é surpreendentemente novo para nós na cirurgia. Nem todos nas equipes cirúrgicas ficaram felizes em experimentá-la. Mas os resultados foram sem precedentes.'
Entre outubro de 2007 e setembro de 2008, oito hospitais em oito cidades — Toronto, Nova Délhi, Amã, Auckland, Manila, Ifakara, Londres e Seattle — testaram a lista de verificação em 3.733 pacientes antes e 3.955 depois de sua introdução. A taxa de morte caiu de 1,5% para 0,8% (P=0,003) e as complicações em pacientes internados, de 11,0% para 7,0% (P<0,001). As reduções foram de magnitude igual em locais de alta e de baixa renda.
Ela diagnosticou a memória e a hierarquia como os pontos de falha: a maioria dos itens já era feita individualmente, mas nunca era verificada em conjunto por toda a equipe, todas as vezes.
Três pausas fixas deram a cada membro da equipe um momento para falar, de modo que a observação de uma enfermeira discreta podia deter um erro antes que a autoridade do cirurgião o sobrepusesse.
Um ritual de dois minutos era pequeno o bastante para ser executado em qualquer sala de operação do planeta, rica ou pobre — o piloto incluiu deliberadamente Ifakara e Manila, assim como Seattle e Londres.
Testar primeiro em oito hospitais fez com que cirurgiões céticos encontrassem evidências — um terço menos complicações e mortes — em vez de um argumento sobre listas de verificação.
Quando o conhecimento existe, mas não é aplicado todas as vezes, a solução é um ritual compartilhado: curto, feito em voz alta, em equipe — para que a qualidade deixe de depender da memória ou da hierarquia.
Os resultados da lista de verificação foram publicados no New England Journal of Medicine em janeiro de 2009, e a OMS já pretendia ter 2.500 hospitais usando a ferramenta até o fim daquele ano. A organização emitiu posteriormente um manual de implementação para adaptá-la localmente e informou que ela é hoje usada pela maioria dos prestadores de serviços cirúrgicos no mundo. A mensagem de Gawande era que o padrão era maior que a cirurgia: listas de verificação curtas e extremamente simples 'podiam se tornar tão essenciais na medicina diária quanto o estetoscópio' — e se tornaram, virando o modelo para listas de verificação em terapia intensiva e no parto.
CONFIRA AS EVIDÊNCIAS
As fontes
- Checklist helps reduce surgical complications, deaths World Health Organization · who.int ·
- WHO Surgical Safety Checklist — tool and resources World Health Organization · who.int
- A Surgical Safety Checklist to Reduce Morbidity and Mortality in a Global Population (NEJM abstract) Stanford Health Care · stanfordhealthcare.org ·